| O
poder de consumo feminino força a indústria
a alterar produtos e criar novas estratégias
de marketing
Por: Darcio Oliveira, Eduardo Pincigher e Daniela Fernandes
Talvez
você não saiba, consumidora, mas o estofamento
do banco de seu carro foi cuidadosamente escolhido para
não desfiar meias-calças. Se você
olhar bem, vai observar também que todos os veículos
hoje em dia têm espelho de cortesia no quebra-sol
do motorista – para aquela retocada básica
no batom, enquanto o sinal está fechado. E se
reparar ainda mais, verá que o vão entre
a maçaneta e a porta do veículo está
mais fundo e os botões do painel ficaram maiores.
Tudo para que você não risque ou quebre
as unhas. Ah, sim. Há montadoras que entregaram
o desenho do interior do veículo a estilistas
de moda e convocaram modelos famosas para anunciar seus
carros na TV – hoje, já não se fala
tanto em potência ou aerodinâmica, mas sim
em design, conforto, segurança e economia. Parabéns,
mulheres! Vocês acabam de fazer uma revolução
na indústria. E não só na automobilística.
As fabricantes de telefones celulares já inventaram
aparelhos que exibem tabelas de calorias e cujo visor
se transforma em espelhinho de maquilagem. As empresas
de tecnologia mudaram o design de seus computadores,
scanners e impressoras porque sabem que, além
de toda a funcionalidade, eles têm que ser também
belos objetos de decoração na casa. “Estamos
vivendo a era da ‘mulherização’
da economia. E já não era sem tempo. Além
do grande poder de consumo elas têm uma espetacular
influência na decisão de compra de qualquer
produto ou serviço”, diz Romeo Busarello,
professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing
e diretor da construtora Tecnisa. Sua empresa, aliás,
é prova desse furor feminino. Segundo Busarello,
42% dos imóveis vendidos pela Tecnisa são
“escriturados” pelas mulheres. E pesquisas
internas indicam que elas têm influência
decisiva na compra de 91% dos apartamentos da companhia.
Frederic
Jean
SEXO FRÁGIL?
Engenheiras da Tecnisa comemoram: mulheres dão
a última palavra em 91% dos imóveis vendidos
As
mulheres respondem pelo consumo de 94% do mobiliário
doméstico. Dão a última palavra
na aquisição de 42% dos carros novos.
Bancam 58% dos remédios; 92% de pacotes turísticos
e escolhem 88% dos planos de saúde negociados
no País. Os dados vêm de pesquisas realizadas
por consultorias e empresas de vários setores
da economia. Trata-se de uma tendência global
e os últimos números revelam que o mercado
brasileiro se aproxima muito da realidade européia
e norte-americana. Essa força feminina, nas maiores
economias do mundo, está umbilicalmente ligada
à ascensão da mulher no mercado de trabalho.
A festejada consultora americana Faith Popcorn (o nome
é esse mesmo) se apóia em dados recentes
para reforçar a tese da mulherização.
Segundo ela, a mulher americana hoje representa 50%
da População Economicamente Ativa dos
EUA. Há uma década, o número não
passava dos 42%. Na prática, isso significa maior
independência, maior renda e uma enxurrada de
dólares no mercado de consumo. Calcula-se que
as cidadãs norte-americanas sejam responsáveis
pela injeção de mais de US$ 5 trilhões
anuais na economia dos EUA. Em seu PopCorn Report, Faith
sustenta que durante anos a Indústria fechou
os olhos para esse fenômeno e se contentou em
vender apenas o óbvio para as mulheres –
exatamente como aquele marido que só oferece
flores no aniversário de casamento. Os tempos
agora são outros e Faith aproveita para dar um
puxão de orelha nos empresários: “Não
nos venham mais com flores”.
Frederic
Jean
Na Montblanc, “elas”
ganharam linha de 300 itens
No Brasil, as mulheres já respondem por 44,9%
da População Economicamente Ativa (PEA).
Em 1992, esse índice era de 39%. O professor
Busarello exibe outro termômetro curioso para
mostrar o crescimento “delas” no mercado
de trabalho. “Em 1991, existiam apenas quatro
serviços de delivery no Brasil. Hoje, são
4,5 mil”, conta. “Trocando em miúdos,
a mulher deixou de ser dona-de-casa em tempo integral
e foi à luta”. Diante dos fatos, a indústria
acordou e começou a tratá-las como rainhas,
sem flores, mas oferecendo produtos de alta qualidade,
com muita tecnologia e com um design que valorize os
anseios femininos. Mais ainda, a Indústria mudou
drasticamente sua forma de marquetear os produtos. Você
imaginaria uma década atrás a germânica
Volkswagen recorrendo à modelo Ana Hickman para
vender um carro? Ou a Citröen colocando na tevê
a bela Fernanda Tavares, pedindo para experimentar um
C3 “pretinho” decorado pelo estilista Ocimar
Versolato? A mulher é a grande comandante de
compras da família e até o carro do marido
tem de passar pelo seu crivo. “Lançamos
o Clio Sedan O Boticário para esse público
e fizemos um golaço: elas representam quase a
metade das vendas do modelo Clio”, afirma Antônio
Megale, diretor de marketing da Renault. “Se você
também somar a influência que exercem nas
compras efetuadas pelos homens, vai chegar a 70%”,
calcula Luís Salem, gerente de marketing da Ford,
uma das montadoras de maior empatia com as consumidoras.
Prova disso é a recente escalada de vendas do
EcoSport, um jipinho de porte compacto que vem despontando
como um dos veículos de maior participação
feminina nas compras, isto é, 55%. E há
algo mais “masculino” que jipe? A Volkswagen
é outra que recorreu às opiniões
femininas na configuração de seus novos
veículos. A propaganda de TV que mostra Ana Hickman
– e seu 1m20 de pernas – assumindo o volante
de um Fox contempla dois objetivos primordiais da comunicação
do carro: vendê-lo às mulheres e valorizar
seu espaço interno. “O Fox tem 17 porta-objetos
que foram inteiramente aprovados pelas mulheres”,
conta Paulo Kakinoff, diretor de vendas da Volks.
Na
Ford o jipão EcoSport virou hit feminino
Até
quem nunca deu muita bola ao chamado “sexo frágil”
rendeu-se à nova ordem do consumo. A Montblanc,
fabricante de artigos de luxo historicamente ligada
ao universo masculino, encabeça agora um projeto
de R$ 1 milhão denominado Montblanc para as Mulheres.
Trata-se de um evento itinerante de alto luxo que está
percorrendo 14 cidades brasileiras. É um festival
de canetas, bolsas, óculos e relógios
para fisgar o novo tubarão do consumo. Estudo
da USP aponta que no segmento de alto luxo 88% das decisões
de compra partem das mulheres. “Elas sempre visitaram
nossas lojas, mas para presentear os homens”,
conta Ana Maria Magalhães, gerente de marketing
da Montblanc. “Há pouco tempo, lançamos
a caneta Mozart, miniatura da clássica Montblanc,
e as mulheres adoraram. A partir daí, vimos a
força desse mercado”. Hoje, são
300 itens voltados para o público feminino.
Outra
que soube aproveitar os desejos femininos foi a HP.
Ciente de que as mulheres respondem por 50% das compras
de produtos de tecnologia, a empresa tratou de embelezar
sua linha de computadores e impressoras. Os monitores
ficaram mais finos, as CPUs menos “quadradonas”
e os teclados ganharam maior ergonomia. A empresa também
lançou um scanner de “vidro”, que
mais parece enfeite do que um equipamento de alta tecnologia.
“Isso sem contar a máquina digital, que
virou hit entre as mulheres”, conta Edissa Furlan,
gerente de marketing da HP Brasil. A ascensão
feminina mexeu em todo o conceito de design e marketing
da empresa. Hoje, nos EUA, há campanhas específicas
da HP para as mulheres.
Mas
nessa área de tecnologia, ninguém atiçou
mais a gula das consumidoras do que as fabricantes de
telefones celulares. Por uma razão óbvia:
elas trocam de aparelho com muito mais freqüência
do que os homens. Números da Nokia mostram que
em 2003 as vendas para as mulheres aumentaram 23,1%,
enquanto o índice masculino ficou em 22%. Diante
disso, a empresa finlandesa radicalizou: imagine só
um celular com câmera digital, capaz de enviar
imagens para um “pingente” no pescoço
da consumidora. Ideal para as mamães que querem
levar a foto dos filhos a tiracolo. Pois a Nokia tem
um desse. E o que não dizer do celular com o
tamanho de um tubo de batom? “As mulheres estão
cada vez mais ávidas por tecnologia. Mas de uma
coisa elas não abrem mão: a beleza dos
telefones”, diz Anderson Ramos, diretor de marketing
da Nokia. A Panasonic também inovou, com um celular
que exibe tabelas de calorias e outra para ciclo menstrual.
“São elas que ditam as tendências
em nosso meio”, afirma Ramos, da Nokia.
No
setor de seguros, há uma luta diária pela
conquista do público feminino. O Bradesco Seguros
acaba de lançar o Vida Mais Mulher, que cobre
diagnóstico de câncer de mama e ovário
e oferece serviços de informação
nutricional. Já o Unibanco AIG faz uma faxina
em seu seguro Mulher e adiciona até descontos
de clínicas de estéticas no contrato.
A indústria, pelo visto, descobriu algo além
das flores.
AS MULHERES COMPRAM OU INFLUENCIAM A COMPRA
DE:
94% dos acessórios do lar
92% dos pacotes turísticos
91% dos imóveis
88% dos planos de saúde
88% de artigos de luxo
75% de produtos de limpeza
72% de artigo de papelaria
65% de alimentos
50% dos computadores
42% dos carros
Fonte:
Edelman, StrategyOne, Phytia Research, H2R, Empresas
SAIBA
QUE:
Em 1980, as mulheres adquiriam 18% dos automóveis
novos. Hoje respondem por 42% das vendas. Os modelos
prediletos são os monovolumes (50%) e os compactos
(44%). As montadoras são unânimes na definição:
a mulher compra o carro de dentro para fora, valorizando
espaço, conforto e segurança, enquanto
o homem adquire o zero km de fora para dentro, apreciando
design, potência, etc.
As
jovens solteiras são um forte perfil de consumidor:
são extremamente profissionais, têm maior
poder aquisitivo do que a média e podem gastar
com liberdade. Pesquisa da Mastercard e H2R com 300
mulheres na faixa dos 30 anos, traz uma informação
emblemática dos novos tempos: mais de 90% delas
não concordam com a máxima de que ser
sustentada pelo marido é um ideal de vida.
Pesquisa
realizada pela Diageo, uma das maiores fabricantes mundiais
de bebidas, revela que 65% dos consumidores de vinho
no Brasil são mulheres. Baseado nisso, começou
a promover encontros entre sommeliers femininas para
divulgar seus produtos e mudou os rótulos dos
vinhos, adotando mais cores e desenhos. Agora, vai repetir
a dose com os uísques.
O
termo Mulherização foi criado pelo professor
de marketing Carlos Alberto Júlio, que também
é presidente da empresa HSM. A denominação
surgiu em seus livros sobre tendência de consumo.
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