O Brasil insiste em sobreviver
2 de junho de 2026
‘Precisamos criar nossas oportunidades’. A frase não pertence a nenhum empresário, dirigente ou economista. É de João Vitor Nunes, um jovem de 16 anos, campeão mundial de robótica. Ela carrega uma espécie de síntese silenciosa da trajetória do empreendedor brasileiro que nas últimas décadas aprendeu a operar em um ambiente marcado por juros elevados, burocracia, instabilidade econômica, mudanças tributárias, infraestrutura limitada, insegurança jurídica e baixo crescimento. E que, ainda assim, exportou, inovou, investiu e reinventou mercados, em muitos casos, não porque o ambiente favorecesse, mas apesar dele.
A frase ganha densidade porque expressa uma mentalidade que talvez tenha se tornado uma característica estrutural do Brasil contemporâneo: a necessidade de construir caminhos próprios em vez de esperar condições ideais.
Há quase uma ética de adaptação no empreendedor brasileiro já que o país raramente ofereceu estabilidade contínua de longo prazo comparável em economias desenvolvidas. Tiveram que improvisar, ajustar, recalcular, sobreviver em ambientes hostis, capturar nichos e transformar escassez em criatividade.
João Vitor pertence a geração que cresce num mundo em que a tecnologia muda rapidamente, as carreiras se transformam, a inteligência artificial altera modelos produtivos, a inovação pesa mais do que escala bruta e o conhecimento vale mais do que recursos naturais isolados. Talvez o Brasil do futuro dependa da capacidade de converter talento disperso em estratégia coletiva.
O país já mostrou que possui inteligência, criatividade, capacidade técnica, adaptação e, acima de tudo, empreendedorismo. O desafio continua sendo transformar essas competências individuais e setoriais em continuidade nacional.
A frase é importante hoje, e provavelmente será ainda mais amanhã. Sugere que a nova geração tenha compreendido algo que o Brasil demorou décadas para perceber: o futuro dificilmente virá pronto. Será preciso construí-lo. E aqui aparece o elo entre o campeão da robótica e o empresário resiliente: ambos aprenderam que esperar o ambiente ideal pode significar ficar parado para sempre.
Então, independentemente da idade, não deixem de avançar, mesmo em terreno instável.
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