Esperar ou apenas reagir? Construir protagonismo é ir muito além disso
A maturidade individual das lideranças molda a cultura organizacional e define a busca proativa por resultados
28 de setembro de 2026
A Teoria 10/90, consagrada pelo consultor norte-americano Stephen Covey, estabelece uma premissa simples e transformadora: dez por cento da vida é composto por eventos inevitáveis, coisas que fogem inteiramente ao nosso controle, enquanto os noventa por cento restante referem-se à forma como reagimos — conscientemente ou não — a esses acontecimentos.
O ponto central do conceito não reside no impacto do imprevisto em si, mas na maturidade e na consciência da resposta escolhida. Um exemplo clássico do cotidiano ilustra com clareza essa dinâmica: estar retido em um engarrafamento a caminho de um compromisso importante. O trânsito intenso e parado representa o fato consumado, a parcela inalterável dos dez por cento. Diante dele, o indivíduo tem algumas possibilidades:
Entregar-se ao desespero, buzinar, esmurrar o volante e xingar, elevando o estresse e contaminando a rotina de quem estiver ao redor;
Adotar o sofrimento passivo, vitimizando-se e remoendo o evento durante e após o ocorrido; ou
Optar pela serenidade, regulando o ar-condicionado, escolhendo uma boa trilha sonora e preservando a própria clareza mental. Aproveitar o momento da melhor forma possível enquanto avalia com sobriedade as possibilidades — o que inclui a aceitação. Este tempo de sobriedade, inclui analisar formas de evitar, com ações preventivas, novos eventos como este.
O trânsito permaneceu rigorosamente o mesmo em todos os cenários — nenhum deles com potencial de mudar a realidade em si —, mas a resposta individual nos noventa por cento alterou por completo o resultado da experiência e a gravidade que poderia decorrer disso.
Quando essa lógica deixa o âmbito pessoal e ingressa no ambiente corporativo, as reações individuais deixam de ser isoladas e passam a ecoar por toda a organização. Nenhuma empresa existe no abstrato; ela é uma rede viva de pessoas cujas atitudes individuais geram um efeito cascata imediato no coletivo.
Diante dos imprevistos operacionais — a matéria-prima que atrasa ou a peça de mostruário que chega à loja na tonalidade errada na véspera de um lançamento —, a maturidade das respostas individuais determina o clima e a eficiência do ecossistema. Se a resposta a uma falha for pautada pela precipitação e pelo impulso defensivo ou agressivo, a equipe rapidamente se divide em um jogo de acusações: a loja culpa a fábrica por incompetência, a fábrica culpa o setor de compras pela especificação do insumo, a discussão ganha proporções tóxicas e o problema original permanece sem solução.
Por outro lado, quando os profissionais respondem com maturidade, o coletivo redireciona a energia para acomodar a contingência e comunicar os afetados pelo evento com transparência, além de investigar o fluxo técnico para que a falha não se repita.
Nesse processo de transição da resposta individual para o comportamento coletivo, a liderança desempenha o papel mais determinante. O coletivo tende a responder à imagem e à semelhança de seus líderes, uma vez que a postura adotada pela gestão diante do imprevisto atua como o código de conduta tácito do grupo.
Lideranças que reagem às flutuações e aos problemas com pânico, cobranças desmedidas ou busca obstinada por culpados chancelam uma cultura eminentemente reativa, na qual os colaboradores aprendem a se esconder, omitir falhas e agir com sobressalto. Em contrapartida, quando os gestores acolhem os dez por cento inevitáveis com serenidade e sobriedade, mantendo o foco na resolução e no aprendizado, eles ensinam toda a estrutura a canalizar seus noventa por cento com inteligência. É a conduta diária do líder que transforma reações isoladas em uma cultura organizacional sólida e previsível.
É no plano da cultura organizacional que a provocação da Teoria 10/90 atinge sua dimensão mais estratégica. Se uma empresa utilizar seus noventa por cento apenas para "reagir bem" aos imprevistos diários, ela passará toda a sua existência apagando incêndios e gerenciando danos.
A verdadeira virada de chave ocorre ao compreender que os noventa por cento precisam ser intencionalmente construídos como uma agenda deliberada de protagonismo, inovação e inteligência proativa. O resultado de longo prazo não acontece por acaso nem pode ser deixado ao sabor da sorte.
Uma fábrica não pode esperar passivamente que a demanda perfeita bata à sua porta, assim como uma loja não pode depender exclusivamente da entrada espontânea do consumidor no ponto de venda.
A sustentabilidade do negócio exige a postura contínua de garimpar oportunidades, mapear gargalos de processo, antecipar exigências de mercado e otimizar fluxos técnicos antes mesmo que as crises se instalem. Grande parte dos engarrafamentos pode ser evitada — ou melhor administrada — com pesquisa e planejamento.
A longevidade na indústria e no varejo depende, em última análise, da capacidade de integrar a inteligência emocional individual à inteligência estratégica de negócios.
Essa síntese reflete com precisão a essência da célebre Oração da Serenidade, proposta pelo teólogo Reinhold Niebuhr - com acréscimos meus no tocante à teoria que analisamos:
É preciso cultivar a serenidade para aceitar os dez por cento inalteráveis, absorvendo flutuações econômicas, aumentos de insumos ou oscilações temporárias de mercado sem pânico desnecessário.
Ao mesmo tempo, é indispensável ter a coragem para assumir o protagonismo irrestrito nos noventa por cento transformáveis, com a serenidade e a determinação de quem sabe o que faz e não apenas reage.
Por fim, faz-se necessária a sabedoria para discernir entre os ruídos passageiros e as mudanças estruturais que exigem correções imediatas de rumo.
Os dez por cento representam o cenário dado pelo ambiente; os noventa por cento traduzem a trajetória, a cultura e o valor que a liderança escolhe edificar com sua equipe.
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