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O que Van Gogh teria a dizer ao setor moveleiro

Ele nasceu em 1853, em Zundert, na Holanda, filho de um pastor protestante. A família era de classe média. Seu tio era sócio da Goupil & Cie, uma das mais prestigiadas galerias de arte da Europa, mas sua carreira durou dez anos (1880–1890), período em que produziu 879 telas e mais de 1,1 mil desenhos e esboços. Vendeu oficialmente uma pintura em vida: A Vinha Encarnada (The Red Vineyard, 1888), adquirida por 400 francos numa exposição em Bruxelas, em 1890.

Costumava trocar telas por comida ou tubos de tinta. Morreu na miséria, sustentado pelo irmão Theodorus, ou Theo, quatro anos mais novo e que durante toda a vida adulta enviou-lhe mesada regular, pagou materiais, médicos, internações. Sem ele, Vincent não teria pintado. Em julho de 1890 cometeu suicídio.

Devastado, Theo morreu seis meses depois, deixando Johanna, 28 anos, um bebê de poucos meses, uma casa abarrotada de telas que ninguém queria comprar e mais de 900 cartas, das quais 820 sobreviveram. Nelas, Vincent descreve com precisão cirúrgica e sensibilidade poética o que está pintando, por que está pintando, as cores que escolheu, a luz da Provença, as angústias, as leituras, a solidão. 

Cada quadro uma história contada pelo próprio autor.

Johanna tinha convicção de que a obra do cunhado era genial, Theo a convencera disso, sabia que as cartas eram narrativa bruta. Dotada de uma inteligência estratégica incomum para uma mulher na virada do século XIX, fez o que hoje chamaríamos de plano de marketing e relações públicas de longo prazo: catalogou cada obra, mudou-se para a pequena Bussum, onde montou uma pensão e cobriu as paredes com as telas expondo hóspedes e visitantes às telas.

Depois, selecionou e publicou as cartas, despertando a atenção do público. Estrategicamente, emprestava ou vendia obras para colecionadores influentes e museus-chave, entendendo que a presença em instituições de prestígio gerava validação. E organizou exposições retrospectivas que construíam uma narrativa coerente — a do gênio incompreendido, do artista que sacrificou tudo pela arte.

As cartas eram a chave. Quem as lesse e depois olhasse para Os Girassóis, para O Quarto em Arles, para A Noite Estrelada, ou para uma simples cadeira de madeira com assento de palha, já não via mais um objeto. Via uma história. Em 1888, em Arles, Vincent pintou A Cadeira de Van Gogh (Van Gogh's Chair), um móvel rústico de madeira, assento de palha trançada, um cachimbo e um saquinho de tabaco sobre ela. O chão é de ladrilhos. Não há figura humana. Só a cadeira. Não há nada de intrinsicamente valioso ali: madeira, palha, tinta a óleo.

Mas a carta que escreveu a Theo transforma essa cadeira em autorretrato. A cadeira vazia é a solidão de Vincent. O cachimbo é seu companheiro. A palha desgastada é sua pobreza. Os ladrilhos do asilo de Saint-Rémy ecoam o chão que ele pisava nas crises. O valor não está no objeto. Está na história que o objeto carrega. Uma cadeira de madeira – de valor, talvez US$ 5, torna-se, imbuída da narrativa de um dos ícones da arte ocidental. Hoje, essa tela está na National Gallery de Londres. Não tem preço de mercado — está fora de circulação.

Considerando que estamos falando de cerca de 900 telas, das quais dezenas são obras-primas icônicas, é razoável estimar que, se todas estivessem disponíveis no mercado - um exercício puramente teórico - o valor agregado ultrapassaria confortavelmente a casa dos US$ 10 bilhões e, muito possivelmente, chegaria a US$ 20 ou até 30 bilhões.

Johanna, uma mulher viúva, sem dinheiro, sem formação em arte e sem poder no mercado, transformou um lote de telas rejeitadas no portfólio mais valioso da história da arte ocidental. Ela não pintou nenhum quadro. Ela contou a história deles.

Se uma simples cadeira de madeira pode se tornar um objeto de veneração e desejo, é porque, no fim das contas, não compramos objetos — compramos as histórias que eles contam.

Em outubro de 1888, Vincent escreveu a Theo: "Não posso mudar o fato de que minhas pinturas não vendem. Mas chegará o momento em que as pessoas reconhecerão que valem mais do que o custo das tintas utilizadas na pintura".

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