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Reduzir a jornada é simples. Absorver as consequências não.

A discussão sobre o fim da escala 6x1 e a adoção de jornadas reduzidas avança no Brasil de forma cada vez mais concreta.

O tema ganhou força política, apoio popular e já é tratado por muitos como um caminho praticamente inevitável dentro das transformações das relações de trabalho.

Certamente, o varejo será a parte mais afetada de toda a cadeia em função dos expedientes. Este dilema se soma a todas as preocupações atuais acerca do consumo, da inadimplência, do crédito e dos aumentos recorrentes de preços dos produtos.

Do ponto de vista humano, o debate possui argumentos legítimos: melhor qualidade de vida, mais tempo com a família, disponibilidade para hobbies e capacitação, redução do desgaste emocional e físico, além da busca por relações de trabalho mais equilibradas.

Mas toda mudança estrutural na economia produz reações em cadeia. E é justamente nesse ponto que o debate ganha importância.

O sociólogo José Pastore, professor aposentado da USP, defende que, diante do aumento do ônus sobre a estrutura de custos das empresas, existem alguns ajustes praticamente inevitáveis. Pastore parte de uma lógica econômica conhecida: quando o custo do trabalho aumenta sem um aumento proporcional da produtividade, as empresas se veem obrigadas a buscar mecanismos de compensação. Os mais imediatos são:

 

1. Repasse para os preços

Quando o custo operacional sobe e a produtividade não acompanha, a medida mais imediata é tentar compensar aumentando preços. O problema é que, no fim da cadeia, quem paga essa conta é justamente o consumidor — especialmente o próprio trabalhador. Em uma economia sensível à inflação e com renda comprimida, isso reduz poder de compra, desacelera o consumo e afeta toda a dinâmica econômica.

 

2. Substituição de mão de obra mais cara

Quando os custos aumentam e não é possível absorver tudo nos preços, cresce a pressão para substituir trabalhadores mais caros por profissionais com menor custo salarial. E isso frequentemente atinge trabalhadores mais experientes, que possuem histórico profissional mais longo, salários maiores e encargos proporcionalmente superiores. Estatisticamente, esse tipo de movimento tende a afetar justamente faixas etárias que já encontram maior dificuldade de recolocação no mercado.

 

3. Crescimento da informalidade

Quando formalizar um vínculo se torna excessivamente oneroso para determinados segmentos, parte do mercado passa a operar parcialmente fora da estrutura formal. O fenômeno já foi observado em diferentes momentos da economia brasileira e também em setores específicos, como ocorreu no mercado de trabalho doméstico após mudanças legais relevantes.

 

4. Automação e tecnologia

Sempre que o custo humano aumenta de maneira estrutural, cresce também o incentivo econômico para substituir atividades operacionais por tecnologia, inteligência artificial, autoatendimento e mecanização. Isso melhora a eficiência, aumenta a produtividade e reduz a dependência operacional, mas inevitavelmente diminui a necessidade de determinadas funções.

Mas talvez exista um quinto efeito, menos discutido e potencialmente mais dramático: a inviabilidade de parte dos negócios.

Em um ambiente onde empresas já convivem com elevada carga tributária, juros altos, crédito caro, aumento de custos logísticos, insegurança econômica e pressão constante sobre margens, uma nova elevação estrutural de custo pode representar a chamada “gota d’água”.

Nem todo negócio possui capacidade financeira para automatizar, repassar preços ou absorver perdas temporárias. Especialmente pequenas e médias empresas, que frequentemente operam no limite do fluxo de caixa, podem simplesmente perder viabilidade econômica.

E isso raramente acontece de forma abrupta.

O processo normalmente é silencioso e cumulativo: redução de investimentos, enxugamento gradual das equipes, perda de competitividade, aumento do endividamento, queda de qualidade operacional e, finalmente, encerramento das atividades.

O “x” da questão está justamente no fato de que toda e qualquer alternativa acaba penalizando justamente o trabalhador — seja como consumidor, seja como alguém dependente da manutenção do emprego e da renda.

Nesse cenário, o efeito social pode acabar sendo oposto ao objetivo inicial da medida: menos empregos formais, menor geração de renda, retração econômica e diminuição da atividade produtiva.

O ponto central talvez não seja simplesmente discutir se trabalhar menos é algo desejável. Em muitos aspectos, é.

A questão real é outra: a economia brasileira, já estrangulada por inúmeros fatores, possui produtividade, competitividade e ambiente econômico suficientes para absorver esse custo sem gerar efeitos colaterais ainda maiores?

Porque empresas não operam dentro de discursos. Operam dentro de fluxo de caixa.

E toda decisão econômica, por mais bem-intencionada que seja ou pareça, inevitavelmente produz consequências práticas. Vamos ver como a força de trabalho e os empreendedores conseguirão se ajustar a mais esta medida, caso realmente seja efetivada - algo que, neste momento, parece cada vez mais provável.

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