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Representatividade se constrói, não se espera

Em mais de 40 anos entrevistando empresários das mais diferentes atividades e cargos, percebi algo notável presente em grande parte deles: a facilidade para criar conexões – aquele tipo que encontra um desconhecido no elevador e em menos de cinco minutos se despede com o contato e a promessa de uma nova conversa. Eles exibem uma incomum elasticidade comportamental quando transitam entre o privado e como interlocutor do setor – e isso, necessariamente, não implica em cinismo. 


No privado, a ética é medida pela eficiência, preservação de reputação e continuidade do negócio. O objetivo é mensurável: margem e participação de mercado e expansão, por exemplo. Decisões são tomadas com base em informação privilegiada no sentido econômico. No público, prevalece o interesse coletivo em um ambiente de múltiplos vetores: pressão política, coalizões parlamentares, agências reguladoras, opinião pública. A pretensão é a construção de consenso. 


Testemunhei em diversas ocasiões que em eventos fechados, costumam defender desonerações e proteção temporária para preservar empregos, enquanto em público, recorrem ao vocabulário da competitividade sistêmica. No caso do setor moveleiro isso endossa a percepção de baixa representatividade, somada a sua configuração - pequenas e médias empresas familiares. Mas veja o caso de setores similares, como de têxtil & confecções e calçados que não encontram dificuldades na construção de consensos, capacidade de sustentar agenda em Brasília e até ganham espaço na grande mídia? 


Essa menor expressão institucional compromete a defesa de interesses do setor moveleiro. Exemplo: a proteção contra concorrência desleal, que está em evidência. É preciso entender que esse quadro não é destino. O empresariado precisa romper a zona de conforto e elevar o patamar de atuação, compartilhar dados e prioridades, criar agendas comuns e comunicar-se melhor com o público. Só assim conseguirá fortalecer as entidades representativas.


Em um ambiente fragmentado como o de móveis, a vantagem competitiva pode vir justamente da colaboração, do posicionamento coletivo. O setor só ganhará reconhecimento e poder de negociação quando trocar o “cada um por si” por união, estratégia e presença pública qualificada. Não tem outra saída.


O psicólogo holandês Geert Hofstede mapeou mais de 70 países para entender como a cultura nacional afeta o ambiente de trabalho. O Brasil pontua significativamente como uma cultura coletivista em que o "nós" vem antes do "eu". Nos negócios, isso se traduz na premissa de que primeiro criamos um vínculo de confiança mútua (o grupo) para só depois falarmos de contratos. Quem dera isso possa ser o combustível para dar voz ao coletivo.


Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Móveis de Valor
 

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