Casas Bahia expõe na RJ quase R$ 470 milhões da cadeia moveleira
Levantamento identifica créditos de fabricantes de móveis, colchões e fornecedores e revela alcance da RJ

A recuperação judicial da Casas Bahia deixa uma conta particularmente pesada para a cadeia moveleira brasileira. Levantamento realizado a partir da relação de credores mostra que a exposição identificada de fabricantes de móveis, estofados, colchões e empresas fornecedoras de matérias-primas, componentes e insumos se aproxima de R$ 470 milhões.
O novo recorte amplia a dimensão inicialmente identificada pela Móveis de Valor. A análise dos credores mostra que o impacto não termina nas empresas que entregaram móveis e colchões para serem vendidos pela rede. Ele avança pela cadeia e alcança fabricantes de painéis de madeira, ferragens, tintas e vernizes, adesivos, espumas, produtos químicos, vidros, papéis decorativos e outros componentes utilizados pela indústria.
Considerando a classificação adotada no levantamento e evitando a duplicação de empresas que atuam em mais de um segmento, a exposição identificada chega a aproximadamente R$ 467,5 milhões.
Desse montante, cerca de R$ 367,7 milhões estão relacionados a fabricantes de móveis e estofados; aproximadamente R$ 44,9 milhões, à indústria de colchões; e outros R$ 54,9 milhões, a fornecedores ligados à cadeia produtiva.
Os valores devem ser considerados aproximados. Algumas empresas possuem atuação em mais de um segmento e a própria relação judicial classifica genericamente uma grande variedade de negócios como operações com fornecedores. Por isso, a Móveis de Valor adotou um critério conservador, atribuindo cada crédito a apenas um grupo na consolidação geral.
Móveis concentram a maior exposição
É entre os fabricantes de móveis e estofados que está a maior parcela dos recursos envolvidos.
A Linoforte Móveis aparece na primeira posição, com R$ 77,69 milhões a receber. Logo depois vem a Itatiaia Eletro e Móveis, com R$ 45,91 milhões, seguida pela Indústria e Comércio de Móveis Europa, com R$ 33,96 milhões.
Somadas, apenas essas três empresas acumulam aproximadamente R$ 157,6 milhões em créditos.
A lista continua com Luizzi, Demóbile, Mademarques, Poliman, Cama Inbox e Artely, entre outros fabricantes de diferentes polos moveleiros brasileiros.
O levantamento conseguiu avançar para pelo menos 30 empresas com valores relevantes. Entre elas estão companhias de grande porte e fabricantes menores, mostrando que a exposição não ficou restrita a poucos fornecedores estratégicos da varejista.
Há créditos de dezenas de milhões de reais no topo da relação, mas também valores inferiores a R$ 1 milhão. Para empresas menores, porém, a dimensão absoluta da dívida pode dizer menos do que sua importância proporcional para o caixa.
Esse é um aspecto que a simples soma dos créditos não consegue revelar.
Colchões também sentem o impacto
A indústria de colchões forma outro grupo importante entre os credores.
Neste segmento, a classificação exige cuidado porque algumas companhias também fabricam móveis, espumas ou outros produtos. Umaflex e Herval são exemplos. Para impedir que os mesmos créditos fossem contabilizados duas vezes no total da cadeia, cada empresa foi atribuída a apenas um segmento na consolidação.
No ranking específico do mercado colchoeiro, entretanto, elas ajudam a dimensionar a exposição das empresas que participam desse setor.
A Umaflex aparece com crédito de R$ 24,60 milhões. A Herval Indústria de Móveis, Colchões e Espumas tem R$ 20,27 milhões, enquanto a Herval Nordeste aparece separadamente com outros R$ 11,37 milhões.
Consideradas conjuntamente, as duas operações da Herval somam R$ 31,64 milhões.
Também aparecem Maranhão Colchões, Base Indústria de Colchões, Oryon, Colchões Castor, Americanflex, Nordeste Indústria e Comércio de Colchões, Ortonorte, Bioflex, Comfort Prime e outras empresas relacionadas ao segmento.
Mais uma vez, a relação mostra como a crise de um grande varejista pode rapidamente deixar de ser um problema exclusivamente comercial e alcançar a estrutura financeira dos fabricantes.
A dívida chega às matérias-primas
A ampliação da análise para a relação completa de credores revelou talvez a parte mais interessante do levantamento.
A recuperação judicial chega também às empresas que estão antes da fábrica.
Entre os fornecedores identificados, a Dexco aparece com crédito superior a R$ 20,3 milhões. A Eucatex, considerando dois registros encontrados na relação, soma aproximadamente R$ 7,1 milhões.
Só essas duas empresas ligadas ao fornecimento de painéis representam aproximadamente R$ 27,4 milhões.
A lista prossegue com fornecedores de poliuretanos, tintas e vernizes, ferragens, espumas, componentes metálicos, papéis e revestimentos, EPS, adesivos, vidros e embalagens.
A CBP aparece com cerca de R$ 4,36 milhões, Rochesa com R$ 3,93 milhões e Bigfer com R$ 3,08 milhões. Também estão presentes Mercosul Espumas, Metalúrgica Albras, Bobinex, Isonew, Brasmacol, SB Espelhos e Vidros, Artecola e outros fornecedores.
A relação confirma, por exemplo, créditos da Artecola de R$ 353,6 mil e da Latina Vidros de R$ 138,8 mil. Jomarca aparece com R$ 469,5 mil. Até a Leo, importante distribuidora de produtos para marcenaria e indústria, aparece entre os credores, embora com valor bem menor, de R$ 13 mil.
É justamente essa pulverização que ajuda a compreender o efeito econômico da recuperação judicial.
O efeito Bartira
Há uma particularidade adicional no caso da Casas Bahia.
O grupo não atua somente no varejo. A presença da Bartira na fabricação de móveis faz com que parte da exposição aos fornecedores esteja relacionada também à atividade industrial.
Isso ajuda a explicar a presença, entre os credores, de empresas ligadas diretamente à produção moveleira.
A recuperação judicial, portanto, produz dois movimentos simultâneos dentro da cadeia. De um lado estão fabricantes que forneceram produtos acabados para comercialização nas lojas e canais digitais do grupo. De outro, empresas que abasteceram a atividade industrial com matérias-primas e componentes.
O problema percorre praticamente toda a estrutura: matéria-prima, componente, fábrica e varejo.
Mais do que contas a receber
Os quase R$ 470 milhões precisam ser observados também por outro ângulo.
Na contabilidade, são créditos. Na operação diária das empresas, representam dinheiro que deveria retornar ao caixa para financiar novas compras de matérias-primas, salários, impostos, produção, investimentos e capital de giro.
Quanto maior a dependência comercial de uma empresa em relação à Casas Bahia, maior tende a ser o impacto.
Uma dívida de R$ 2 milhões pode ser relativamente administrável para uma grande companhia e extremamente relevante para uma indústria de menor porte. É por isso que o ranking dos maiores credores revela apenas uma parte do problema.
Há também um efeito indireto difícil de mensurar. Quando um fabricante deixa de receber, tende a preservar caixa, rever investimentos e negociar prazos com seus próprios fornecedores. O crédito que não retorna do varejo pode, portanto, gerar pressão financeira sucessivamente para trás na cadeia.
É nesse ponto que uma recuperação judicial de grande porte deixa de ser apenas uma questão entre uma empresa e seus credores.
Uma concentração que merece atenção
O caso também reacende uma discussão antiga na indústria moveleira: o risco da concentração das vendas em grandes redes.
Grandes varejistas oferecem escala, volume e presença nacional. Para muitos fabricantes, representam oportunidades importantes de produção e crescimento. Mas essa relação também pode criar dependência.
Enquanto as vendas estão crescendo e os pagamentos seguem normalmente, a concentração raramente parece um problema. É quando ocorre uma ruptura financeira que o risco se torna visível.
Os números da Casas Bahia dão dimensão concreta a essa discussão.
Uma única recuperação judicial colocou centenas de milhões de reais da cadeia moveleira em negociação, atingindo desde grandes fabricantes nacionais até empresas muito menores de componentes e insumos.
Não significa que a indústria deva abandonar os grandes clientes. Significa que concentração, limite de crédito, garantias, prazo e diversificação da carteira precisam fazer parte da estratégia comercial com a mesma importância dada ao volume de vendas.
A conta chega perto de R$ 470 milhões
O levantamento consolidado permite dimensionar o alcance identificado até agora:
Móveis e estofados — aproximadamente R$ 367,7 milhões
Colchões — aproximadamente R$ 44,9 milhões
Fornecedores da cadeia produtiva — aproximadamente R$ 54,9 milhões
TOTAL IDENTIFICADO — cerca de R$ 467,5 milhões
Mais importante do que o número absoluto, entretanto, é perceber como ele está distribuído.
Não são quase R$ 470 milhões concentrados em uma única indústria ou em meia dúzia de grandes companhias. São recursos espalhados por fabricantes de móveis, estofados e colchões e por fornecedores de diferentes matérias-primas e componentes.
A crise começa no caixa do varejista, mas percorre a cadeia no sentido inverso.
Chega a quem vendeu o móvel. Atinge quem fabricou o colchão. Alcança quem forneceu o painel, a ferragem, a espuma, o adesivo, a tinta ou o vidro.
É assim que uma dívida do varejo se transforma em quase R$ 470 milhões de preocupação para toda uma cadeia produtiva.
Veja abaixo o ranking dos maiores credores entre Fornecedores, Indústrias de Móveis e Sofás e empresas ligadas ao setor de colchões:



Carregando categorias...

Comentários0
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro.