Congresso da Movergs expõe preocupações da indústria com o cenário
Reeleição de Lula, juros elevados e incertezas fiscais marcaram os debates em Bento Gonçalves

Dois dias após a definição da eleição presidencial, empresários e lideranças da indústria moveleira reuniram-se em Bento Gonçalves (RS), no dia 27 de outubro, para discutir os desafios de crescimento em um ambiente de juros elevados, dificuldades fiscais e incertezas sobre os investimentos. Na 34ª edição do Congresso da Movergs, a reeleição de Lula esteve entre os principais temas de preocupação dos participantes.
Com o tema “Hipertrofia Industrial – como quebrar barreiras do mercado para continuar crescendo”, o encontro reuniu análises sobre os rumos políticos e econômicos do país, além de discutir estratégias para enfrentar as dificuldades. A mensagem que prevaleceu foi a necessidade de adaptação: diante de obstáculos que não dependem exclusivamente das empresas, a indústria precisa encontrar alternativas para continuar crescendo.

O presidente da Movergs, Vitor Agostini, defendeu que o empresariado concentre esforços naquilo que pode efetivamente transformar. Para ele, inovação, adaptabilidade e busca de novos mercados devem orientar as decisões das empresas.
“A palavra para o momento é adaptabilidade. Apesar do agravamento das dificuldades, a orientação é não desistir e explorar mercados estratégicos fora do país, como América do Sul, América Central e América do Norte”, afirmou.
Em relação aos Estados Unidos, Agostini avalia que as barreiras tarifárias poderão ser temporárias e que a cooperação comercial entre os países continuará necessária.
Três cenários para o próximo governo

Uma das apresentações que mais chamaram a atenção foi a de Roberto Motta, engenheiro, mestre em Gestão, escritor, comentarista político e ex-consultor do Banco Mundial. Ele apresentou três cenários políticos e institucionais possíveis para o próximo mandato presidencial.
No primeiro, Motta projetou um governo com dificuldades de articulação política, confrontos com o Congresso Nacional, obstáculos à aprovação de indicações ao Supremo Tribunal Federal (STF) e agravamento da instabilidade econômica. Na avaliação do palestrante, esse quadro poderia resultar em recessão e até em uma crise de governabilidade.
O segundo cenário apresentado considera a possibilidade de maior concentração de poder no Executivo, com conflitos envolvendo o Legislativo, indicações ao STF, regulação das redes sociais e mudanças na estrutura de segurança pública.
Já o terceiro, descrito por Motta como o mais extremo, contempla um agravamento das tensões institucionais, com enfraquecimento do Congresso, restrições às liberdades e ampliação do controle estatal.
As três hipóteses representam projeções do palestrante sobre possíveis desdobramentos políticos, e não acontecimentos confirmados.
“O desenrolar mais provável está situado em um ponto entre o primeiro e o segundo cenário, a depender dos desdobramentos diários e da capacidade de resistência do Congresso”, avaliou.
Independentemente do cenário, Motta manifestou preocupação com o aumento da carga tributária, a persistência da inflação e a possibilidade de novos conflitos entre os poderes.
Situação fiscal preocupa a indústria

O economista-chefe da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), Giovani Baggio, concentrou sua análise nas consequências econômicas da reeleição presidencial, especialmente diante das dificuldades das contas públicas.
Segundo Baggio, o desequilíbrio fiscal representa um dos principais obstáculos à construção de um ambiente econômico com inflação e juros mais baixos. Na sua avaliação, a falta de disciplina nas contas públicas limita a capacidade de flexibilização da política monetária e mantém elevados os custos financeiros para empresas e consumidores.
“Havia uma expectativa de mudança de política econômica porque o país está com uma situação de contas públicas bem difícil e isso precisa ser olhado com muito cuidado. É isso que vai permitir ter inflação menor e juros menores”, ressaltou.
O economista destacou que a deterioração das contas públicas pode ampliar o endividamento, aumentar a percepção de risco e comprometer a confiança dos investidores. Para a indústria, os reflexos aparecem principalmente nas decisões de expansão da capacidade produtiva, contratação de trabalhadores e aquisição de equipamentos.
A manutenção dos juros em patamares elevados também dificulta o acesso ao crédito e pressiona o consumo, fatores especialmente relevantes para o setor moveleiro.
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Investimentos entram em compasso de espera
As preocupações apresentadas no Congresso já influenciam decisões empresariais.
Elton Paulo Gialdi, diretor da Mérica Logística, especializada no transporte de móveis para o Rio de Janeiro, afirmou que pretende desacelerar um projeto de ampliação da frota de caminhões diante das perspectivas econômicas.
Para ele, 2027 será um ano ainda mais desafiador. “Os juros vão continuar muito elevados. Isso afeta muito o consumo”, afirmou.
Gialdi considera que as empresas precisarão reforçar a gestão e encontrar novas alternativas para enfrentar o período. “Será preciso mais criatividade, mais resiliência da gente, mais gestão ainda”, enfatizou.
O presidente da Movergs reconhece que juros elevados, incertezas sobre o retorno dos investimentos e falta de confiança no cenário futuro dificultam a aprovação de novos projetos. Ainda assim, Agostini defende que o setor não pode permanecer paralisado.
Para ele, coragem, determinação, perseverança e capacidade de adaptação serão fundamentais para atravessar o período.
“O setor precisa fazer o dever de casa, trabalhar com empenho e buscar ativamente novas oportunidades de negócio”, concluiu.
Entre projeções políticas preocupantes e dificuldades econômicas concretas, o Congresso da Movergs deixou evidente o desafio que se apresenta à indústria moveleira: preservar sua capacidade de investimento e crescimento em um ambiente de incertezas, sem deixar de buscar novos mercados e oportunidades.
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