Indústria europeia corta investimentos, e preserva inovação em móveis
Pesquisa da CSIL mostra que fabricantes europeus reduzem investimentos, mas mantêm a aposta em novos produtos

A indústria moveleira europeia enfrenta uma situação aparentemente contraditória. Pressionados pela demanda enfraquecida, pelos custos de produção e pela concorrência de móveis importados, mais de 60% dos fabricantes estão adiando ou reduzindo investimentos. Entretanto, menos de 15% pretendem fazer o mesmo com a inovação de produtos.
Os números fazem parte de um estudo da consultoria italiana CSIL, apresentado durante a SICAM 2026, em Pordenone, na Itália. A pesquisa ouviu aproximadamente 200 fabricantes europeus em julho deste ano e revela uma mudança nas prioridades industriais: mesmo diante das dificuldades econômicas, as empresas procuram preservar os investimentos capazes de diferenciar seus produtos.
A decisão ganha importância em um mercado que movimentou € 94 bilhões em 2025, aproximadamente 20% da produção mundial de móveis. A Itália permanece como maior fabricante europeu, com produção estimada em € 20 bilhões.
Menos investimentos, mais diferenciação
Segundo a CSIL, os fabricantes estão concentrando os cortes e adiamentos principalmente em instalações produtivas, contratações e treinamento. A inovação, entretanto, continua recebendo atenção.
A estratégia está relacionada ao avanço de fornecedores de fora da União Europeia, que disputam espaço principalmente por meio de preços competitivos. Para enfrentar essa concorrência, os fabricantes europeus procuram valorizar design, qualidade, personalização e conformidade com as regulamentações.
Nesse processo, os fornecedores de componentes assumem papel cada vez mais importante. Ferragens, painéis, revestimentos, mecanismos e sistemas tecnológicos deixam de ser apenas elementos utilizados na fabricação e passam a contribuir diretamente para a diferenciação dos móveis.
O estudo da CSIL, desenvolvido a partir de dez anos de informações sobre expositores da SICAM e outras pesquisas setoriais, permite identificar como essa transformação está ocorrendo.
Superfícies e tecnologia ganham espaço
Uma análise das descrições de produtos apresentadas pelos expositores da SICAM entre 2021 e 2025 mostra que as superfícies representam o tema mais frequente, com 25% das menções temáticas em 2025.
Entre as soluções destacadas estão acabamentos ultrafoscos, superfícies com toque suave, resistência a marcas de dedos, efeitos de pedra e texturas tridimensionais.
A integração de tecnologia aos móveis aparece em segundo lugar, com 19% das menções. Iluminação LED incorporada, tomadas e carregadores ocultos, mecanismos motorizados e ferramentas digitais para projeto e rastreabilidade estão entre os recursos apresentados.
Essas soluções mostram que a inovação não depende necessariamente de mudanças radicais no desenho dos móveis. Muitas vezes, a diferenciação está na combinação entre materiais, funcionalidade, conforto e experiência de uso.
Sustentabilidade avança entre os fornecedores
A sustentabilidade foi o tema que mais ganhou participação nas descrições analisadas pela CSIL. Sua presença passou de 5,7% das menções em 2021 para 10,1% em 2025.
O crescimento acompanha as mudanças na legislação europeia, especialmente as exigências relacionadas ao ecodesign e ao futuro Passaporte Digital de Produtos.
Durabilidade, possibilidade de reparo, utilização de materiais reciclados e disponibilidade de informações sobre a composição dos produtos tornam-se características cada vez mais relevantes.
Para os fabricantes, essas exigências ampliam a necessidade de trabalhar com fornecedores capazes de oferecer soluções técnicas e documentação adequada.
Leia: Móveis inteligentes: a indústria 4.0 chega ao setor moveleiro moderno
Fornecedores deixam de ser apenas vendedores
Outra transformação identificada pelo estudo é o avanço das relações de parceria entre fabricantes e fornecedores.
A proporção de expositores que mencionaram colaboração e desenvolvimento conjunto de produtos passou de uma faixa entre 2% e 6%, no período de 2021 a 2023, para 9% em 2024 e 2025.
A CSIL também identificou aproximadamente 30 parcerias comerciais e de desenvolvimento entre fornecedores divulgadas no ambiente digital da SICAM entre 2021 e 2025.
Esse movimento indica uma aproximação entre quem desenvolve os componentes e quem fabrica o produto final. A inovação passa a depender cada vez mais da capacidade de integrar conhecimentos, materiais e tecnologias ao longo da cadeia produtiva.
Uma mudança que interessa ao Brasil
Embora o estudo esteja concentrado na Europa, suas conclusões oferecem elementos importantes para a indústria brasileira.
A concorrência baseada exclusivamente em preço tende a limitar as possibilidades de diferenciação, especialmente em mercados pressionados por custos e consumidores mais cautelosos.
A experiência europeia sugere que fabricantes e fornecedores podem encontrar alternativas na inovação aplicada ao produto, na funcionalidade e na valorização dos materiais.
O levantamento também mostra que, mesmo em períodos de contenção de investimentos, algumas empresas procuram preservar os recursos destinados ao desenvolvimento de novos produtos.
Para a indústria moveleira brasileira, a questão não é simplesmente acompanhar as tendências europeias, mas avaliar como a integração entre fabricantes e fornecedores pode resultar em móveis com maior valor agregado e melhores condições de competição.
Afinal, quando a indústria reduz investimentos, decidir onde continuar investindo pode ser tão importante quanto definir onde cortar.
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