Nova taxa do débito vai beneficiar lojistas

Segundo economista, limitação na taxa pode ser revertida em descontos para os clientes

Nova taxa do débito vai beneficiar lojistas

De acordo com dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), as vendas nos cartões de débito no Brasil movimentaram R$ 481 bilhões em 2017. O valor correspondeu a 11,6% das despesas de consumo das famílias brasileiras no último ano.

 

Embora a maior parcela das vendas no cartão seja realizada na modalidade crédito, que movimentou R$ 735 bilhões no ano passado (ou 17,7% do consumo), o volume transacionado no débito vem crescendo a um ritmo superior desde 2007, quando as informações do setor passaram a ser acompanhadas. Entre as explicações para o crescimento mais acelerado do débito estão os menores custos da modalidade para o lojista, que paga uma taxa menor que a do crédito (1,52%, contra 2,65%) e ainda recebe a valor das vendas em apenas 2 dias, contra uma média de 30 dias no caso das vendas realizadas no crédito.

 

A modalidade ganha agora um novo impulso, já que o Banco Central estabelecerá um teto para a taxa de intercâmbio nas operações com cartão de débito. A taxa de intercâmbio, vale lembrar, é um dos componentes da taxa de desconto paga pelos lojistas sobre o valor de cada venda realizada no cartão. Ela corresponde à parcela da taxa de desconto repassada pela credenciadora (dona da maquininha) ao emissor do cartão que efetuou a compra. Segundo os dados disponibilizados pelo Banco Central, a taxa média de intercâmbio dos cartões de débito subiu de 0,72% em 2012 para 0,82% em 2017, o que, a despeito da maior concorrência no mercado de maquininhas, limitou a queda da taxa paga pelo lojista, que passou de 1,58% para 1,45% no período.

 

Estimativas da Boanerges & Cia., consultoria especializada em varejo financeiro, mostram que os lojistas gastaram R$ 24,4 bilhões em 2016 com as taxas pagas nas vendas no cartão, dos quais R$ 17,8 bilhões nas vendas no crédito e R$ 6,5 bilhões nas vendas no débito. No caso do débito, R$ 3,1 bilhões (47,3%) ficaram com as credenciadoras e R$ 3,4 bilhões (52,7%) com os emissores dos cartões. Interessante notar que, enquanto as despesas totais com as taxas dos cartões caíram entre 2014 e 2016, acompanhando a queda das vendas do comércio no período, o único componente que registrou alta foi a parcela referente à taxa de intercâmbio dos cartões de débito (Emissores - Débito, no gráfico).


A circular 3.887 do Banco Central, publicada na segunda-feira (26/03), limitará, a partir de 1º de outubro de 2018, a tarifa de intercâmbio média de cartões de débito a 0,50% – e a tarifa máxima, a 0,80%. A expectativa é que, ante a maior concorrência no mercado de maquininhas, a redução da taxa de intercâmbio se reverta em menor taxa de desconto para os lojistas. Afinal, com a medida, as novas credenciadoras terão condições de oferecer taxas mais baixas aos estabelecimentos comerciais e, assim, acirrar ainda mais a competição no mercado de credenciamento.

 

Além disso, a redução de 0,30 ponto percentual da taxa média paga pelos lojistas significaria uma economia de R$ 1,3 bilhão por ano para o setor de comércio e serviços, redução de 5,3% em relação ao que é gasto atualmente com as taxas dos cartões. Nada garante, porém, que a taxa para o lojista cairá nesta magnitude. O repasse dependerá das estratégias adotadas pelas credenciadoras.

 

Com a eventual redução da taxa do débito ganharão não somente os lojistas, que reduzirão suas despesas com as vendas no cartão, mas toda a sociedade, já que, com custos menores para os lojistas, tende a crescer a aceitação de cartões. A sociedade ganha também caso a redução da taxa do débito para o comércio se reverta em descontos para os clientes que optarem pelo pagamento na modalidade –em vez do pagamento no cartão de crédito, em uma ou mais parcelas, cujo custo para o estabelecimento comercial é mais alto que o do débito. Portanto, cabe também aos lojistas fazerem sua parte para estimular a concorrência e a transparência do sistema brasileiro de pagamentos.

 

O texto acima é de Vitor França, economista, é professor universitário e consultor da Boanerges & Cia., especializada em varejo financeiro. A análise foi publicada originalmente no Diário do Comércio

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