Varejo de móveis movimenta bilhões, mas cresce sob pressão
Ranking IRTT mostra força de Casas Bahia, Gazin e Lojas Cem, avanço das redes regionais e transformação digital desigual

O varejo brasileiro de móveis continua movimentando cifras expressivas, mas os números do Ranking IRTT TOP 300 do Varejo Brasileiro 2026 revelam um mercado no qual tamanho, capilaridade e presença digital estão produzindo estratégias bastante diferentes.
O levantamento do Instituto Retail Think Tank considera o desempenho de 2025 e reúne 23 empresas na categoria Eletromóveis. Juntas, elas faturaram R$ 91,6 bilhões, equivalentes a 6,9% das vendas das 300 maiores varejistas brasileiras. Entre as empresas com dados comparáveis de 2024 e 2025, o crescimento chegou a 8,2%.
O dado chama atenção porque o avanço ocorreu em um ambiente pouco favorável aos bens duráveis. O próprio estudo destaca os juros elevados e as restrições ao crédito como obstáculos importantes. Em 2025, segundo os dados do IBGE reproduzidos pelo IRTT, especificamente o varejo de móveis recuou 4,2% em volume e 1,2% em receita nominal.
É justamente esse contraste que torna o ranking interessante: enquanto o mercado de móveis encolheu, várias das grandes redes conseguiram avançar.
Casas Bahia permanece muito à frente
Entre as empresas com forte atuação na comercialização de móveis, o Grupo Casas Bahia permanece em uma escala difícil de ser comparada às demais. A companhia aparece na 7ª posição entre todas as varejistas brasileiras, com vendas de R$ 33,833 bilhões em 2025, crescimento de 7% sobre os R$ 31,590 bilhões do ano anterior.
A rede encerrou o período com 1.042 lojas, ante 1.064 em 2024. Portanto, aumentou o faturamento mesmo com redução de 2% no número de unidades. O ranking também mostra forte presença digital: e-commerce, atuação em marketplaces próprios e de terceiros e prioridade alta para projetos de inteligência artificial.
O próprio IRTT relaciona parte desse desempenho ao processo de reestruturação da companhia e aos investimentos em logística, IA e marketplace.
Gazin cresce 14% e reforça força regional
A Gazin aparece como segunda maior empresa do grupo Eletromóveis, com R$ 13,753 bilhões em vendas, avanço de expressivos 14% sobre os R$ 12,084 bilhões registrados em 2024.
A empresa passou de 358 para 378 lojas, expansão de 6%, e está presente em nove estados. O número é particularmente significativo porque demonstra a capacidade de uma companhia de origem regional de ganhar escala sem necessariamente adotar uma presença física nacional.
Outro dado chama atenção: o ranking atribui à Gazin prioridade alta para inteligência artificial, além de registrar e-commerce e presença em marketplaces de terceiros.
Lojas Cem mantém um modelo diferente
Na terceira posição aparece a Lojas Cem, com faturamento de R$ 8,327 bilhões, crescimento de 7% sobre os R$ 7,817 bilhões do ano anterior.
A empresa encerrou 2025 com 312 lojas, apenas três a mais do que em 2024, e presença física concentrada em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná.
Mas talvez o aspecto mais interessante seja outro. Enquanto praticamente todos os seus grandes concorrentes avançaram para o comércio eletrônico, o ranking registra a Lojas Cem sem e-commerce.
Isso torna a empresa uma exceção relevante no varejo brasileiro: uma operação de mais de R$ 8 bilhões que continua sustentada essencialmente pela loja física. Mais do que uma curiosidade, o dado mostra que não existe uma única fórmula para competir no varejo de móveis.
Colchões também entram entre os gigantes
A Ortobom ocupa a sexta posição da categoria Eletromóveis e a 63ª posição geral, com R$ 4 bilhões em vendas e nada menos que 2.400 lojas, segundo o levantamento.
É uma configuração completamente diferente das demais empresas do grupo. A capilaridade decorre do modelo de operação da marca e coloca o segmento de colchões entre os grandes negócios do varejo brasileiro. O ranking também aponta e-commerce, presença em marketplace de terceiros e prioridade alta para IA.
Leia: Estudo global da IKEA traz um recado para a indústria de móveis brasileira
Um segundo pelotão bastante pulverizado
Depois das primeiras posições, aparece um grupo numeroso de redes regionais e especializadas.
A Lojas Colombo registra R$ 2,616 bilhões e 355 lojas; a Lojas Becker, R$ 2,150 bilhões e 250 unidades; o Mercado Móveis, R$ 2,070 bilhões e 230 lojas; e o Grupo Toky, formado por Tok&Stok e Mobly, aparece com vendas estimadas em R$ 1,927 bilhão e 64 lojas.
Na sequência estão Lojas Koerich, com R$ 1,5 bilhão; Marabraz, com R$ 1,150 bilhão; Império Móveis e Eletro, R$ 770 milhões; Zenir Móveis e Eletros, R$ 769 milhões; Berlanda, R$ 737 milhões; Grupo Ramiro Campelo, R$ 720 milhões; e Magazine Liliani, R$ 670 milhões. Os dados constam da análise específica de Eletromóveis do ranking.
Tok&Stok e Mobly mudam de escala
Um dos movimentos estruturais destacados pelo IRTT foi a união de Mobly e Tok&Stok, formando o Grupo Toky.
Segundo o estudo, a operação levou o grupo a avançar 102 posições, chegando ao 130º lugar entre as maiores varejistas brasileiras. O IRTT observa que as mudanças ocorridas ao longo de 2025 fizeram com que o processo de uniformização dos sistemas e busca de sinergias ganhasse efetivamente força apenas no segundo semestre.
É um caso particularmente importante para o setor moveleiro porque reúne duas empresas que nasceram de modelos praticamente opostos – uma fortemente ligada à loja física e outra originada no comércio eletrônico – e agora precisam extrair valor justamente da integração desses canais.
Regionalização ainda define o varejo de móveis
Talvez uma das conclusões mais importantes do levantamento esteja menos nos faturamentos individuais e mais na estrutura do mercado.
Das 23 empresas classificadas como Eletromóveis, 16 estão abaixo da 100ª posição do ranking nacional. O próprio IRTT chama atenção para a predominância de empresas de capital fechado e atuação regional, muitas delas presentes em até cinco estados.
Essa característica ajuda a explicar por que o varejo brasileiro de móveis e eletrodomésticos permanece bastante fragmentado. Há gigantes nacionais, mas também existe espaço para empresas que construíram posições fortes em determinadas regiões.
Ao mesmo tempo, essa estrutura traz um desafio. O IRTT alerta que a menor escala pode tornar essas companhias mais vulneráveis à concorrência de grandes marketplaces e grupos mais capitalizados.
O tamanho não conta toda a história
Os números mostram, portanto, um varejo de móveis convivendo com modelos bastante diferentes. Casas Bahia busca eficiência e reorganização em enorme escala. Gazin cresce preservando uma forte origem regional. Lojas Cem aposta em uma estratégia predominantemente física. Ortobom construiu capilaridade excepcional no colchão. Tok&Stok e Mobly tentam transformar uma fusão em sinergia entre canais. E dezenas de redes regionais continuam relevantes em seus mercados.
Há ainda uma diferença tecnológica importante: e-commerce já é praticamente regra entre essas empresas, mas inteligência artificial ainda não é. Casas Bahia, Gazin e Ortobom aparecem com prioridade alta para IA; Colombo, Berlanda e Ramiro Campelo, média; Zenir, baixa; enquanto várias outras não apresentam classificação no levantamento.
O Ranking IRTT ajuda, assim, a mostrar algo que os números gerais do comércio nem sempre revelam: o varejo de móveis não está seguindo uma única direção. Está experimentando diferentes caminhos para resolver o mesmo problema – como crescer em um mercado dependente de crédito, pressionado pelos juros e no qual o consumidor passou a transitar naturalmente entre loja física e ambiente digital.
Fonte: Ranking IRTT TOP 300 do Varejo Brasileiro 2026 – Instituto Retail Think Tank. Os valores referem-se às vendas de 2025 e, conforme a metodologia do estudo, não incluem vendas de sellers realizadas nos marketplaces das empresas.
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