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Flor pode ser matéria-prima para produzir móvel? Em Portugal sim

Sem a flor do cardo não há queijo Serra da Estrela, em Portugal. A planta, de cor roxa, é fundamental para este produto típico uma vez que a flor ajuda o leite a coalhar, mas a espécie é mais importante que isso e pode ter outros fins, defende um professor da Escola Superior Agrária de Viseu, que passou os últimos dez anos estudando esta flor com a intenção de melhorar a produção do queijo DOP. Paulo Barracosa acabou agora um doutorado que foi aprovado com distinção e louvor.

A investigação realizada com o apoio de alunos do estabelecimento de ensino contou também com a parceria com outras entidades como o Centro de Biotecnologia Agrícola e Agroalimentar do Alentejo (CEBAL), sediado em Beja, também em Portugal.

Segundo Paulo Barracosa, todos os elementos da planta do cardo, a raiz, folhas, caules, flores e sementes podem ser utilizadas de alguma forma. A raiz, revela o docente universitário, "é riquíssima em inulina" e "no futuro próximo que vai ter um papel muito importante na nutrição".

Já as folhas "têm compostos bioativos muito notáveis", possuindo "um anticancerígeno" e outros "compostos que podem ser usados no combate de infecções e no tratamento de doenças que afetam as videiras, por exemplo.

No decorrer do estudo foi já desenvolvido um produto fitossanitário que foi aplicado numa vinha e onde foram feitas já duas colheitas (2017 e 2019).

Também já foi criado um sabonete à base de óleo e folhas. Há ainda papel e produtos têxteis criados a partir da planta.

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Uso da flor em móveis

Para além das folhas, o investigador focou-se no aproveitamento do caule. A queima deste material pode ser um dos destinos, mas Paulo Barracosa percebeu quando estava cortando a flor que a sua haste possuía uma "leveza incrível e ao mesmo tempo uma resistência".

Depois de desafiado pelo investigador, o Departamento de Madeiras do Politécnico de Viseu "percebeu que esta estrutura tem uma baixa densidade e uma elevada resistência", características que foram aproveitadas para a construção de peças de mobiliário.

"Desenvolveram móveis que foram apresentados em Milão, na maior feira de mobiliário do mundo, e com caráter inovador. [Fizeram] mobiliário para queijarias, para queijeiros, e suportes [para garrafas] de vinhos. São coisas primárias, mas o que conta é a essência", salienta.

O estudo considera que, pela importância da indústria dos aglomerados na região de pesquisa, esta nova utilização do caule no mobiliário pode trazer novos ganhos econômicos. De resto, a investigação procurou não só ajudar os produtores do queijo Serra da Estrela como criar mais valor econômico na região.

"Normalmente os processos de aplicação demoram dezenas de anos. Nós, em dez anos andamos muito, quase sem apoios, e eu acredito que nos próximos cinco vamos andar de forma acelerada", diz o pesquisador, argumentando que para o cardo contribuir ainda mais para o desenvolvimento de uma das zonas do país que mais o consome é necessário "plantar dezenas de hectares" na região.

Os produtos criados à base de cardo já são uma realidade, mas ainda não estão à venda no mercado. Tem faltado "a oportunidade". Para acelerar esse processo, Paulo Barracosa não descarta a possibilidade de criar uma empresa start-up. "Já estive mais longe de o fazer", conclui.

As novas utilizações do cardo revelam "a beleza desta planta" e ajudaram a tornar Portugal numa referência mundial no estudo de uma espécie que promete dar ainda muito que falar.

(Com informações TSF Rádio e Notícias de Portugal)

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