Black Friday ‘morna’ indica Natal mais fraco no varejo

Dados preliminares da tradicional temporada de promoções apontam um recuo inédito de mais de 20%

Os dados da Black Friday mostram uma mudança no perfil de compras, que cresceu entre os não duráveis
Os dados da Black Friday mostram uma mudança no perfil de compras, que cresceu entre os não duráveis

Com juros altos e parte da renda das famílias comprometida com dívidas, dados preliminares apontam uma queda inédita nas vendas da Black Friday e da Cyber Monday — celebrado ontem com foco em promoções de eletroeletrônicos — e acendem um sinal amarelo no varejo. Empresas, consultorias especializadas e economistas já refazem as projeções de vendas para o Natal, incluindo previsões de queda em relação ao de 2021.

 

Fábio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), destaca que a Black Friday deste ano coincidiu com a alta no endividamento do consumidor em meio às incertezas sobre o futuro da economia.

 

Segundo o Banco Central (BC), 28,7% da renda dos brasileiros estão comprometidos com dívidas, um patamar recorde, diz Bentes:

 

"A isso se soma juro elevado, criando obstáculo para as vendas. Esperávamos vendas melhores, já que a inflação cedeu em relação ao final do ano passado, mas essa melhora ainda não chegou na ponta. Como a Black Friday tem forte venda em bens duráveis, estamos vendo recuo porque o consumidor já está endividado e ainda há indefinições para 2023, como a manutenção dos R$ 600 do Auxílio Brasil (que voltará a se chamar Bolsa Família), o que afeta a vendas de eletrônicos e eletrodomésticos."

 

Segundo o economista, esse movimento vai afetar em cheio o comércio no Natal:

 

"Havia uma perspectiva de alta de 2,1% nas vendas deste Natal. Agora, isso pode ser revisto para baixo por conta do endividamento e do custo do crédito, conforme revelaram os dados do BC. Podemos esperar uma estabilidade nas vendas para o Natal, com lembrancinhas e compras à vista.", apontou Bentes.

 

Os dados da Black Friday mostram uma mudança no perfil de compras, que cresceu entre os não duráveis. Segundo os dados da Neotrust, o consumidor preferiu as ofertas de itens de beleza (+7,8%), artigos pet (+10%), biscoitos e snacks (+79%), carne, frango e pescado (+163%) e congelados (+70%). Por outro lado, houve queda de 42% na venda de celulares, de 40% na de itens de informática e de 19% na de eletrodomésticos.

 

leia: Consumidores antecipam compras, por isso Black Friday foi ‘morna’

 

"A venda de cerveja foi antecipada ao longo do mês, com alta de 49%, como a do uísque, com crescimento de 11%. O mesmo ocorreu com as TVs, com avanço de 1%. Nesta temporada, estamos vendo as empresas tirando o pé do acelerador, com menos ofertas de frete grátis e até preços maiores para entrega. Não estamos mais naquele momento de vender a qualquer custo.", avalia Paulina, que por isso prevê uma queda de 3% no faturamento do comércio no Natal deste ano em comparação com o de 2021.

 

Analistas como João Pedro Soares, do Citi, e Luiz Guanais, do BTG Pactual, dizem que as tendências apontadas por uma Black Friday mais modesta reforçam um cenário desafiador para as varejistas on-line. Levantamento da BigDataCorp, sob encomenda do PayPal Brasil, mostrou que o desconto médio na Black Friday caiu de 57,38% no ano passado para 54,37% em 2022. Segundo Thoran Rodrigues, CEO e fundador da BigData, é um reflexo da menor confiança dos vendedores no mercado. Por outro lado, isso dificultou ainda mais as vendas.

 

"Os consumidores estão especialmente sensíveis a preço este ano, levando em consideração as taxas de endividamento e de inadimplência, o atual nível dos juros e o aumento do custo de vida.", avaliou Thaisa Fausto, head de novos negócios do PayPal Brasil.

 

(Com informações Agência O Globo)

Comentários0

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro.

    Carregando categorias...