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A fantástica história do casal que deu ao mundo a vacina Pfizer

Um menino de 4 anos sai do interior da Turquia para a Alemanha com seu pai, um operário que vai trabalhar numa fábrica da Ford. Cresce, torna-se o primeiro filho de imigrantes turcos a graduar-se em sua escola, obtém um PhD em medicina e casa-se com uma médica, também filha de imigrantes turcos. Decidem empreender na busca da cura do câncer, pois a indústria farmacêutica considerava sua pesquisa “ousada demais”. Conseguem investimento, têm sucesso e abrem o capital na Nasdaq.

Uğur Şahin e Özlem Türeci (foto: Financial Times)

Em janeiro deste ano, fazem um pivot histórico e trabalham dia e noite por 11 meses para desenvolver e aprovar uma vacina contra a covid-19 em tempo recorde; a marca anterior era de mais de 4 anos. Hoje, sua empresa, a BioNTech, vale mais que o Deutsche Bank, o turco é uma das 100 pessoas mais ricas da Alemanha e continua indo ao trabalho de bicicleta na pequena Mainz, onde Gutemberg inventou a prensa móvel e começou a revolução do conhecimento 600 anos atrás. São muitas lições numa mesma história. Para nossa sorte, tanto Uğur Şahin, o menino, como os pais de sua esposa, Özlem Türeci, encontraram as portas de um país desenvolvido abertas. O casal teve acesso a educação de primeira linha desde a infância, o que permitiu que compartilhassem com o mundo toda a sua genialidade. Uma economia saudável e funcional permitiu sua ascensão social e seu triunfo em uma das maiores batalhas da humanidade. Cedo na carreira, o casal se deparou com a aversão das grandes empresas farmacêuticas incumbentes ao risco e à inovação de sua pesquisa, que prometia revolucionar o tratamento do câncer. Em busca do seu sonho os dois fundam, então, a Ganymed Pharmaceuticals com objetivo de transformar uma pesquisa acadêmica numa terapia eficaz contra o câncer com base em anticorpos monoclonais. Assistem a vídeos online e leem “Business Plan for Dummies” para aprender sobre o mundo dos negócios, e seguem convictos que têm a solução para um grande problema, ainda que muitos não compartilhassem dessa visão. Conseguem convencer a MIG, um venture capital baseado em Munique, a fazer o investimento na empresa que, mais de uma década mais tarde, foi vendida por € 1,4 bilhão. Em 2008, Şahin consegue um breakthrough científico ao melhorar exponencialmente a estabilização da frágil molécula do RNA mensageiro, ou mRNA, e acredita no seu potencial para transportar trechos de código genético até nossas células, que fabricariam proteínas simulando um patógeno específico - como uma célula cancerígena ou um vírus - e treinariam o sistema imunológico para seu combate. Com sua esposa e a mesma MIG liderando um grupo maior de investidores, fundam uma nova empresa, a BioNTech, com objetivo de desenvolver imunoterapia individualizada para o câncer com o mRNA.

Mas foi o que veio depois que mudou para sempre a história da BioNTech, e do mundo. Um pivot, no mundo da tecnologia, ocorre quando uma empresa usa todos os seus recursos e ruma em uma nova direção. Casos clássicos são o YouTube, inicialmente um site de namoro e o Instagram, originalmente um confuso app de check-ins, como o Foursquare. Em fins de janeiro, assim que o vírus da Sars-CoV-2 teve seu sequenciamento genético publicado, Şahin decide pivotar toda sua empresa para produzir a vacina para covid-19 usando a tecnologia de mRNA, algo inédito no mundo. Uma transformação de muita sensibilidade, gigantesca e corajosa que contou com a rápida aprovação de seus investidores numa ligação de 2 horas.

Diferentemente das vacinas convencionais, as de mRNA são programadas num computador e, em apenas um fim de semana, Şahin já tinha 10 candidatas a serem testadas. Na segunda-feira, 27 de janeiro, graças a sua cultura de startup, Şahin comunica o "all in" no novo projeto e convoca sua equipe de colaboradores de mais de 60 nacionalidades para abraçar a causa, abdicar de todos os fins de semana e feriados e trabalhar todas as horas possíveis no projeto que ganhou o nome de “Lightspeed”. A velocidade das decisões, o risco que tomaram e a quantidade de inovação que ocorreu em tão pouco tempo neste feito notável dificilmente seriam possíveis numa grande empresa farmacêutica incumbente. Grandes inovações ocorrem em pequenas empresas. A parceria com a Pfizer, entretanto, deu à BioNTech a musculatura para fazer os ensaios clínicos rapidamente em escala global, produzir e distribuir a vacina. O casal não tem carro nem habilitação e vive no mesmo apartamento há muitos anos na pequena cidade de Mainz, às margens do Reno, apesar de toda riqueza que construíram. Possivelmente, a última vez que Mainz teve tanta relevância no mundo foi em 1455, quando seu filho mais prodígio, Johannes Gutenberg, completou a impressão da Bíblia usando seus recém inventados tipos móveis. Assim como a invenção de Gutenberg abriu caminho para uma revolução do conhecimento, os esforços que a humanidade empregou no combate à covid-19 e para lidar com suas consequências também renderão muitas outras externalidades positivas, ou benefícios. Aos grandes desafios, a humanidade responde com grandes avanços, como nas grandes guerras ou no projeto Apollo, que nos levou à Lua e deixou um legado de inovações em nossas vidas. Şahin acredita que as descobertas do processo de desenvolvimento encurtarão muito o desenvolvimento do tratamento do câncer com a técnica de mRNA. Mais um feito muito aguardado.

Além da cura, o desenvolvimento da vacina da BioNTech nos ilumina com várias reflexões sobre imigração, educação, diversidade, simplicidade, empreendedorismo e muita coragem — o que a vida quer da gente, afinal, como escreveu Guimarães Rosa. Quando perguntados pelo Financial Times — que escolheu o casal como personalidade do ano — qual seria a lição de seu sucesso, responderam que gostariam que fosse um ditado alemão que é o lema da escola em que Şahin estudou: “Es gibt nichts Gutes, außer man tut es” — “Nada de bom acontece, a menos que você faça acontecer”. Diante das adversidades da pandemia, pessoas e negócios fizeram acontecer: inovaram, se reinventaram, pivotaram e aprenderam que novas formas de viver e produzir são possíveis. Ainda estamos sofrendo muito, mas muitos frutos serão colhidos em razão destes esforços e, quando os males da covid-19 passarem, viveremos num mundo melhor.

Por Guilherme Pacheco

Guilherme Pacheco é cofundador da Mosaico e investidor em empresas de tecnologia.

(Fonte: Brazil Journal)

 

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