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O diálogo entre madeiras e pedras no design de mobiliário

Revisado João Caetano - 30 de Janeiro 2026
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Carrinho de Chá TÉA com tampo de Mármore Monet Áurea – Design por Felipe Zorzeto Foto Isadora Costa

No design de interiores contemporâneo, a predileção por materiais naturais e trabalhos artesanais tem se consolidado como uma resposta a um morar mais sensorial, durável e conectado à essência dos espaços. 

 

Entre essas escolhas, a combinação entre madeira e pedra ganha destaque por unir elementos ancestrais da arquitetura em uma mesma linguagem: de um lado, calor orgânico; do outro, solidez e permanência.

 

Além de ser um recurso estético, o encontro entre materiais propõe uma leitura mais profunda do mobiliário, onde a madeira, com sua textura viva e acolhedora, suaviza, enquanto a pedra, com sua identidade visual ímpar, ancora o conjunto. Para o arquiteto e designer de mobiliário Felipe Zorzeto, essa relação nasce justamente do contraste, mas não como oposição, mas como complemento.

 

“A combinação entre madeira e pedra me atrai pela ideia de equilíbrio. São dois materiais primários, que carregam tempos, pesos e temperaturas diferentes. A madeira tem algo de vivo, orgânico e próximo do corpo; a pedra traz permanência, peso e silêncio. Esse diálogo começou a fazer sentido no meu trabalho quando percebi que o contraste entre eles não era sinônimo de conflito, mas sim de complemento, onde um ajudava a revelar as qualidades do outro” explica Zorzeto.

 

Aparador BIA com tampo de Quartzito Cristal Fusion | Design por Felipe Zorzeto
Foto Isadora Costa

 

Madeiras e pedras: uma relação de equilíbrio

 

Esse entendimento orienta não apenas o conceito das peças, mas também a maneira como os materiais se encontram no desenho. Em vez de sobreposições mais “genéricas” ou efeitos decorativos excessivos, a combinação acontece de forma contida, respeitando a natureza e o papel de cada elemento.

 

Ao assumir funções distintas dentro do mobiliário, madeira e pedra criam relações claras e equilibradas. A madeira acolhe e aproxima o objeto do corpo, enquanto a pedra oferece apoio, peso visual e estabilidade. O resultado é uma composição em que nenhum material se sobrepõe ao outro, mas ambos se fortalecem mutuamente.

 

“Eu gosto de trabalhar esse contraste de forma contida, sem exageros. A madeira geralmente assume o papel estrutural ou de acolhimento, enquanto a pedra entra como plano, apoio ou superfície de contato. O importante é que nenhum material domine completamente o outro. Busco um ponto de equilíbrio onde o calor da madeira suaviza a densidade da pedra, e a pedra, por sua vez, ancora e dá presença à peça”, destaca o designer.

 

Essa escolha impacta diretamente a forma como o móvel é percebido dentro do ambiente. Quando madeira e pedra coexistem em uma mesma peça, a leitura se torna mais profunda e menos imediata. O objeto deixa de se impor visualmente e passa a atuar como elemento de estabilidade e permanência no espaço.

 

“Quando madeira e pedra convivem no mesmo móvel, a leitura do objeto se torna mais complexa e, ao mesmo tempo, mais silenciosa. Há uma sensação de solidez sem peso excessivo, de permanência sem rigidez. No ambiente, essa união costuma gerar uma atmosfera de calma e estabilidade, quase como se o móvel tivesse sempre pertencido àquele espaço” pontua Zorzeto.

 

Combinação também requer cuidados

 

Mesa TÊ com com tampo de Quartzito Negresco – Design por Felipe Zorzeto
Foto Isadora Costa

 

Vale destacar que por trás da aparente simplicidade, existe um trabalho técnico rigoroso por trás desta combinação. A união de materiais com comportamentos tão distintos exige atenção desde as primeiras decisões de projeto. 

 

Para o designer, proporção, escolha de espécies, tipos de acabamento e sistemas de encaixe são fundamentais para garantir que essa combinação funcione tanto estética quanto estruturalmente, respeitando os limites de cada material.

 

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“Existem muitos cuidados, tanto técnicos quanto conceituais. A escolha das espécies de madeira, o tipo de pedra, os acabamentos e, principalmente, as proporções são decisões fundamentais. Madeira e pedra se comportam de maneiras muito diferentes com o tempo, a temperatura e a umidade. Por isso, os encaixes, folgas e apoios precisam ser pensados com precisão. Tecnicamente, é um encontro que exige respeito aos limites de cada material”, explica Zorzeto.

 

Esse respeito é também o que contribui para uma estética atemporal. Diferente de soluções guiadas por tendências passageiras, a combinação entre madeira e pedra carrega uma força simbólica e material que permanece relevante independentemente do contexto. A maioria dos ambientes, sejam residenciais, profissionais ou comerciais, sempre carregam algo feito com madeira e/ou pedra.

 

“Madeira e pedra são materiais que atravessam épocas justamente porque não dependem de tendências. Quando usados com simplicidade e honestidade, eles criam uma estética que envelhece bem. Não é sobre parecer antigo ou contemporâneo, mas sobre construir algo que faça sentido hoje e continue fazendo sentido com o passar dos anos”, conclui Zorzeto.

 

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