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Como uma cadeira virou troféu para homenagear um ícone

Revisado Natalia Concentino - 15 de Janeiro 2026
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* Por Jorge Montaña, de Bogotá

 

Como uma cadeira que projetei há mais de 20 anos — inspirada em um desenho feito rapidamente sobre a mesa, quase como uma brincadeira com um amigo empresário — acabou sendo produzida em série, sem vender uma única unidade, e ainda assim se transformou em um troféu empresarial, é uma história que merece um artigo.

 

Recentemente, recebi a foto de um restaurante recém-inaugurado que utilizava cadeiras desenhadas por mim em 2003 — e ainda em produção, 23 anos depois. Algo raro nos dias de hoje e, claro, um reforço inesperado para o ego. Mas o que realmente merece ser contado não é a longevidade de uma cadeira, e sim a história improvável por trás de outra cadeira e da figura colossal que foi Vikentios Kakakis, a quem dedico este relato.

 

Na época, eu morava em Fortaleza e tinha grande interesse em conhecer o setor moveleiro regional quando soube de um concurso de design ligado a uma nova feira de móveis em Recife. Cheguei ao evento com dois protótipos selecionados e, para minha total surpresa, fui o único designer a responder ao chamado. Resultado: primeiro e segundo lugar. A situação surreal acabou rendendo um estande gratuito, onde expus outros projetos meus.

 

Também nesta época, um casal de jornalistas e editores da mais respeitada publicação brasileira especializada em mobiliário — Ari Bruno Lorandi, um marqueteiro excepcional, e sua esposa, a jornalista Inalva Corsi, de Curitiba — havia deixado uma revista tradicional do setor para iniciar um novo empreendimento editorial. A proposta era mais ampla, multimídia e inovadora, e poucos anos depois passaria a influenciar de forma decisiva esse mercado.

 

Ambos se tornaram amigos próximos de Vikentios Kakakis. Foi por meio de sua editora que, posteriormente, foi lançado o livro sobre o Sistema de Design Italiano, escrito a quatro mãos com Mauro Paixão, um designer gráfico, e prefaciado por Vik. Esse projeto foi claramente impulsionado pela participação, no ano anterior, em um estande no pavilhão satélite do Salão do Móvel de Milão — também articulado com o apoio de Vik — que levou a Coleção Jangada ao cenário internacional.

 

Foi assim que conheci Vikentios Kakakis, presidente do Sindmóveis de Pernambuco e organizador da feira. O concurso UtiDesign era uma estratégia para aproximar designers dos fabricantes locais e fortalecer a competitividade regional frente às grandes indústrias do Sul. Vik ficou indignado com a ausência total de designers locais e da academia. Acabei sendo “adotado” pela associação e, poucos meses depois, mudei-me para Recife — decisão que gerou resistência e protestos de alguns colegas, animosidade que Vik fazia questão de alimentar com ironia e franqueza.

 

Filho de imigrantes gregos, Vik tinha uma admiração genuína pelo território e pela cultura local. Eu estava profundamente envolvido em pesquisas sobre cultura popular como fonte de inovação — o chamado “fator local”. Vik percebeu rapidamente o potencial estratégico dessa abordagem e passou a apoiá-la com entusiasmo.

 

Dessa convergência nasceu a Coleção Jangada, inspirada nas embarcações artesanais do Nordeste. O projeto começou com cadeiras e logo se expandiu para mesas, aparadores e conjuntos de jantar, fabricados por empresas locais. A coleção ganhou projeção nacional, participou de concursos e chegou até o Salão do Móvel de Milão, resultado de uma rede improvável de colaborações entre designers, empresários, sindicatos e comunicadores.

 

leia: Aqui nascem os sinais que guiam o futuro no Norte & Nordeste

 

Ao mesmo tempo, percorremos Pernambuco absorvendo referências da cultura popular. Em Gravatá, realizamos oficinas de design participativo com marceneiros locais, explorando elementos do sertão: carrocerias de caminhão, portões, cercas, vestimentas de vaqueiro. Foi ali que surgiu a inspiração mais ousada: a figura de Lampião e do cangaço.

 

A partir de um esboço rápido — chapéu, cartucheira e rifle transformados em cadeira — nasceu a peça que mais tarde ficaria conhecida como “cadeira Lampião”, oficialmente rebatizada de Coleção Cangaço. Esteticamente controversa, conceitualmente potente, a peça não vendeu uma única unidade. Mas virou assunto. Circulou por revistas, programas de TV e feiras nacionais. Mais do que um produto, tornou-se um manifesto.

 

Cadeira Lampião

 

Sem perceber, havíamos criado um símbolo de pertencimento territorial, um objeto que traduzia identidade, coragem e criatividade. Hoje, uma miniatura dessa cadeira é o troféu entregue anualmente aos empresários mais destacados do setor moveleiro pernambucano.

 

Troféu traz a cadeira Lampião como destaque e homenageia empresários mais destacados

 

A “cadeira Lampião” não homenageia um bandido, mas um espírito empreendedor forjado em território agreste, criativo e resiliente. Um legado que deve muito à visão, ousadia e liderança de Vikentios Kakakis.

 

Imagino Vik aplaudindo lá do alto.


E agradeço ao Ari pela anedota que me fez revisitar e contar esta história.

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