Sonhos e pesadelos da Inteligência Artifical na vida das pessoas
A vida segue quase a mesma para a maior parte das pessoas enquanto, no andar de cima, o burburinho sobre a Inteligência Artificial (IA) se imiscui no cotidiano, adentra aos poucos nos celulares e nos computadores e é propagandeado pela indústria da tecnologia como a nova revolução. Os poucos céticos olham, calejados pelas promessas jamais cumpridas de soluções tecnológicas para problemas sociais, incrédulos diante do que parece apenas suceder as expectativas anteriores em relação à Internet, à Internet 2.0 e afins.
Parece ontem, mas foi em 2022 que nos deparamos com a então novidade do ChatGPT, ao qual se sucedem muitos outros. Talvez as disputas geopolíticas entre Estados Unidos e China envolvendo IA expliquem parte da excitação coletiva e a proliferação de notícias, já que os impactos cotidianos dela chegam aos poucos e sem que nada tenha virado de ponta cabeça. O mais provável é que a modorra em que o universo tecnológico caiu desde a consolidação – alguns diriam decadência – das redes sociais tenha tornado os anúncios e profecias sobre a IA mais impactantes.
O poder da propaganda tecnológica é fascinante, pois consegue vender uma nova funcionalidade como inteligência, o que efetivamente não é se tivermos como padrão a inteligência humana, assentada na interdependência entre experiência subjetiva, o poder do inconsciente e a corporeidade que nos constitui. Tampouco é artificial, pois a estrutura que a viabiliza é baseada em trabalho humano e consumo de energia e água, portanto recursos naturais escassos.
A IA não passa de mais um aprimoramento da computação e sua costumização que garante maior maleabilidade no uso e aplicação cotidianos. A maioria de suas promessas podem se revelar engodos, assim como aconteceu antes com a Internet 2.0 que prometia aprofundar laços e nos legou rompimentos amorosos, familiares e polarização política explosiva.
Dentre as promessas da IA – leia-se propaganda de seus desenvolvedores e comercializadores – destacam-se as de tirar das classes profissionais o peso crescente do trabalho. Na era do empreendedorismo e a consequente sobrecarga individual das responsabilidades, as empresas de tecnologia não demoraram a embalar seu novo produto como possível solução.
Não apenas a IA por si só não resolve nossa sobrecarga, como vira custo adicional para ser usada em suas funcionalidades completas por profissionais que agora – além de fazer seu trabalho – também a treinam e alimentam contribuindo, não duvidaria, mais para o negócio das bigtechs do que para o seu próprio.
Ao sonho de uma solução tecnológica para a sobrecarga de trabalho e demanda de produtividade crescentes se contrapõe a ameaça de que a IA substitua trabalho humano gerando uma onda avassaladora de desemprego estrutural. Enquanto as classes profissionais temem essa possibilidade, as populares são efetivamente afetadas, pois os trabalhos que exigem menos especialização e anos de estudo são também os mais automatizáveis.
No aspecto automatizador, a IA mais se parece com uma nova revolução industrial que extrapolou as fábricas invadindo todos os espaços de trabalho humano potencial.
Se a resistência ao que hoje podemos chamar de maquinização envolveu a invenção da sabotagem, pois os operários jogavam, literalmente, sabôs (tamancos), nas máquinas para diminuir seu ritmo extenuante, agora – diante da efetiva automatização - um retorno ao analógico não está completamente descartado.
Em contextos como o da educação o retorno ao analógico já acontece, como colegas relatam não pedirem mais trabalhos como avaliação de disciplinas optando por provas em sala de aula, sem consulta, e feitas com lápis, borracha e papel.
Richard Miskolci é um sociólogo que gosta de literatura, cinema, viagens e pesquisa os usos das tecnologias de informação e comunicação há muito tempo.




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