Pisar no acelerador da produção vai fazer a retomada desandar

Conheço uma música de Gilberto e Gilmar, há muitos anos, que conta sobre situações ruins vividas por uma pessoa. Mas quando as situações são analisadas sob outro ângulo, pareciam boas. Tá ruim, mas tá bom é o título da música.

Porém, o contrário também é verdadeiro. E, é o que está acontecendo com a indústria moveleira.

Quem ouviu, como nós ouvimos, as preocupações e até – em alguns casos – o desespero de empresários moveleiros entre o final de março e até maio principalmente, se surpreende com o entusiasmo destes mesmos moveleiros agora. Então, tá bom.

A retomada da produção com escassez de matérias-primas não permitiu o reabastecimento normal do varejo, com o mercado pronto para vender em níveis pré-pandemia, ou até maior. Então, tá ruim. Talvez.

A disposição dos consumidores em mudar de forma significativa o seu habitat, até então relegado a um segundo, ou quem sabe, um terceiro plano é um ponto muito positivo, sem dúvida, mas não vejo razão para uma corrida desenfreada rumo ao atendimento desta demanda. Por quê? Porque ao contrário de alimentos, que se você não vender para a pessoa comer naquele dia a venda está perdida, com móveis a compra é apenas adiada... e vai ser retomada quando a loja tiver o móvel que a pessoa precisa.

Então, o equilíbrio entre oferta e demanda é uma estratégia de sobrevivência. Aliás, a única estratégia.

Eu explico: os custos de produção estão subindo muito. Já se falou sobre a alta de matérias-primas como painéis, aço, vidros, espelhos, TDI – no caso da indústria de colchões, e por aí vai...

Do outro lado continuamos observando deflação no preço dos móveis no varejo. O Índice de Preços no Varejo Ampliado, em agosto, registrou queda de 0,82%. E foi assim todos os meses deste ano, até acumular uma deflação de quase 10% em 2020. O que isso nos diz? Que isso é resultado da cultura de descontos permanentes. E até onde isso vai chegar?

A combinação de custos altos na produção e descontos permanentes no varejo é a combinação para uma tempestade perfeita.

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Pisar no acelerador da produção vai, com certeza, fazer o carro desandar de vez, em pleno processo de retomada do mercado. Não haverá realinhamento dos preços, vamos antecipar o atendimento de uma demanda reprimida de quatro ou cinco anos em quatro ou cinco meses e, lá na frente, voltaremos ao ponto de partida, ou pior, porque – imagino – não haverá outra pandemia para criar um novo auxílio emergencial de 300 bilhões para movimentar a economia.

Cá entre nós: Se você, fabricante de móveis, acha que está bom, mas tá ruim – porque o mercado está comprador, os custos estão muito altos e não dá para atender toda a demanda; logo, logo você vai concluir que a produção e a oferta exagerada afetaram a retomada do mercado. E, então, o melhor que ouviremos é que tá ruim, mas tá bom.

Sempre foi assim.

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