Por que as indústrias de móveis não buscam abrir o capital na Bolsa?

Todos já sabem como se formou o parque industrial moveleiro no País. A origem, em 99% dos casos, foi um pequeno negócio, tocado por um marceneiro ou, depois, por algum funcionário de uma empresa que decidiu empreender também no setor. Isso não é novidade para quase ninguém. Assim como não surpreende o fato de que umas poucas evoluíram até se tornarem empresas de porte, porém sem perder o controle familiar. E nesse grupo estão hoje centenas, enquanto outras milhares ficam no nível médio e outras mais numerosas são pequenas indústrias, com alcance no máximo regional. Este é o universo moveleiro atual.

Eventualmente, motivados pela concorrência com o vizinho, surgiam grupos que se descolavam da média e alcançavam o topo do setor.

Vou abrir um parêntese para lembrar um episódio interessante que tem tudo a ver com o que estou contando: em 2010, em plena recuperação, depois da marolinha de dois anos antes, fomos procurados por um grande fundo de investimentos de São Paulo, interessado em investir nos setores de móveis e de pisos. Já haviam levantado algumas indústrias cerâmicas em Santa Catarina e Paraná e estavam buscando algumas moveleiras. Se tratava de altos investimentos com a percepção de que a aceleração do setor habitacional tinha tudo a ver com móveis, pisos, azulejos etc. A estratégia do grupo era se associar, transformar as empresas em gigantes do setor e abrir o capital. Assim, todos sairiam ganhando, inclusive os fundadores das empresas.

Indicamos uma dezena que consideramos potenciais na época, mas os negócios não evoluíram. Havia dois problemas principais, segundo nos informaram depois: os fundadores não abriam mão da gestão e as empresas não tinham uma boa governança corporativa.

Mas o negócio era bom, tanto que em 2012, com 888 lojas abertas, e um faturamento anual de 280 milhões de reais, a Unicasa abriu seu capital.

No dia 27 de abril noticiamos: A Unicasa Indústria de Móveis, de Bento Gonçalves (RS), ingressou hoje no Novo Mercado da BM&F, e se torna a primeira empresa brasileira de móveis residenciais a entrar na Bolsa. A Unicasa captou R$ 425,6 milhões na sua oferta pública inicial vendendo 44,6% do capital da empresa.

Depois as ações despencaram, o que parece ser frequente e, provavelmente, isso se deve a capacidade dos bancos que coordenam as IPOs, como foi o caso do BTG à época. Este fato se repetiu agora com as ações da Westwings.

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A questão aqui é responder por que as indústrias de móveis não pensam em abertura de capital. Pelo menos é o que se depreende, considerando que de quase 50 companhias já com documentação entregue à Comissão de Valores Mobiliários não há nenhuma moveleira.

Perguntamos ao mesmo fundo de investimentos que nos procurou em 2010, sobre quais as indústrias de móveis, na percepção e nas análises deles, teriam condições de abrir o capital hoje e buscar recursos para crescer, ou fortalecer suas posições no mercado. E a resposta veio com seis indicações, das quais quatro são S.A. de capital fechado. São elas: Móveis Bartira Ltda, Todeschini S.A., Itatiaia S.A., Grupo K1 S.A. (que é a Kappesberg), Marel Indústria de Móveis S.A. e Colchões Castor Ltda.

Por que estas empresas estariam em condições, perguntei? Porque tem alguns princípios considerados fundamentais para quem busca abrir o capital: bom posicionamento no mercado e boa governança corporativa, responderam. Mas é claro que existem outras com condições, afinal quando a Unicasa abriu o capital o seu faturamento anual não chegava a 280 milhões e ela captou mais de 420 milhões vendendo menos da metade do seu capital.

Cá entre nós: será que as indústrias de móveis não querem abrir o capital por temer não oferecer os resultados que os acionistas buscam?. Afinal, nem sempre é fácil garantir retorno aos investidores que apostam na Bolsa, se não repassar os custos para manter as margens de lucro.

Vamos aguardar os próximos meses, porque a janela da Bolsa de Valores para o setor moveleiro, com ótimas oportunidades de captar recursos, continuará aberta por um tempo ainda.

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