Sem consenso em tempo de crise, sobram vítimas, faltam vilões

Na última semana um importante grupo de empresas moveleiras e diversas entidades da classe vieram à público, através de um comunicado, pedindo diálogo entre todos os envolvidos com a cadeia de móveis – fornecedores, fabricantes e lojistas.

A nota busca mostrar que toda a cadeia industrial tem sido tratada como vilã, em virtude dos reajustes, mas, segundo o comunicado, todos são vítimas, inclusive o varejo, porém, faz questão de destacar – claro – que as margens das indústrias estão sendo esmagadas entre aumentos de matéria-prima imediatos e repasses nos móveis muito tempo depois. E lista os principais itens que sofreram os maiores reajustes dos últimos oito ou nove meses. Um misto de morder e assoprar.

Apesar deste tom, não vejo este comunicado como um ataque aos fornecedores. Eu já disse antes que devemos sempre considerar que o efeito de um aumento geralmente ocorre em cascata e acaba parando no elo que tem menos condições de repassar.

por que a comunicação tem menor importância na indústria de móveis?

O aumento no preço dos painéis tem origem na floresta, afinal quem planta árvores também quer ter lucro, seja no mercado interno ou externo; a alta do TDI tem origem nos poços de petróleo e nos preços dolarizados; do aço começa na exploração do minério e na demanda externa, e assim por diante.

Enquanto todos os elos da cadeia moveleira não reconhecerem que os preços dos móveis estão muito abaixo do que era há cinco ou seis anos, será muito difícil chegar a um consenso, e todos ficarão procurando culpados pelo que vem acontecendo.

E, convenhamos, para se chegar à conclusão de que os móveis estão muito baratos, basta uma busca no Google e ver os preços de 2015, por exemplo, e comparar com os praticados hoje, seis anos depois.

Nós fizemos isso e constatamos itens que hoje são vendidos pela metade do preço de seis anos atrás, quando corrigidos pela variação do dólar. E não é demais atualizar pela moeda americana, já que a maioria dos insumos tem origem externa.

Mas, o que chama atenção é que os consumidores não estão deixando de comprar móveis porque móvel é caro. Deixam de comprar móveis quando não tem necessidade. Veja o que aconteceu na pandemia, bastou ficar em casa para perceber a falta de móveis e colchões que lhe proporcionasse mais conforto e comodidade. Então foram às compras. Lojas fechadas não impediu que o consumidor comprasse, tamanho era a urgência de ter móveis novos em casa. Essa é a realidade.

Mas existiram mais duas razões para que esse movimento permitisse ajustes nos preços ao consumidor. Nas lojas, colchão teve aumento de quase 37% em 2020. Melhorar a qualidade de vida através do sono passou a ser uma grande preocupação, então vamos comprar. Esta é uma das razões do ajuste de preços.

A outra, que se alimenta da primeira, é o fato de não ter usado o dinheiro para viagens e despesas em restaurantes, para citar apenas duas coisas que o consumidor fazia antes da pandemia.

Você sabia que o dinheiro reservado pelas pessoas para viagens bate na casa dos 54 bilhões ao ano? E que a alimentação fora do domicílio consome 193 bilhões?

Esse valor é três vezes o que as pessoas reservam anualmente para comprar móveis. Então, com menos viagens e menos despesas em restaurantes, sobrou dinheiro para arrumar a casa.

Cá entre nós: Esse círculo virtuoso pode continuar? Pode, desde que se ajuste a oferta à demanda porque o maior problema, como vimos, não está no consumidor, mas sim na cadeia moveleira que não se entende sobre o preço justo, que remunere fornecedores, fabricantes e lojistas. Enquanto se procura saber quem é vítima e quem é vilão, esquecemos do mercado, de olhar mais para a casa do consumidor, identificar oportunidades, produzir móveis com mais qualidade, que encantem as pessoas. O consumidor já mostrou que está disposto a pagar por isso.

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